
Um aniversário diferentemente especial
Algumas pessoas não costumam dar muita importância a datas comemorativas. Conheço pessoas que parecem fazer questão de esquecer até o dia de seu aniversário. Datas que marcam o dia de uma profissão, de um santo padroeiro, de um clube de futebol, de um município e de uma batalha vencida. São tantas as datas a serem lembradas, que se torna difícil até mesmo ao mais organizado dos mortais saber o que será comemorado nesta ou na próxima semana. Mas, para mim, existe uma grande exceção: o meu aniversário.
O dia 12 de janeiro, desde que me conheço por gente, é uma data a ser comemorada por representar o início de tudo. Claro que antes de minha chegada a este mundo no distante ano de 1988, o planeta Terra já seguia os seus contínuos movimentos de rotação e de translação, as pessoas já tinham os seus problemas a serem resolvidos, outras datas eram comemoradas e muitos povos já haviam guerreado entre si. Mas, defendendo-me de possíveis acusações de demasiado egocentrismo, esclareço de antemão que esses e outros acontecimentos passaram a existir em minha consciência somente depois daquele dia 12 de janeiro. É apenas nesse sentido que costumo, com uma pitada de humorismo duvidoso adicionado a sobras de requentada presunção, proclamar o meu aniversário como a gênese de tudo.
Foi com esse tipo de pensamento que aguardei, ansiosa e diligentemente, a chegada de mais um dos meus aniversários. Já que, por um capricho do destino, a data cairia numa segunda-feira, a festa teria de ser transferida para o sábado seguinte. Apesar da importância da efeméride, começar uma semana com os prazeres de uma pequena tertúlia demandaria um tempo que a maioria dos convidados não teria naquele dia. Obviamente, essa incompatibilidade entre os compromissos laborais e a grande data festiva não agradaria a nenhum ortodoxo seguidor de protocolos. Afinal, a exclusividade de um aniversário requer que a comemoração seja feita em sua data precisa. Algumas adaptações são, porém, necessárias e até as convenções mais tradicionais costumam ser quebradas com frequência. Para que todos nós pudéssemos encerrar os árduos trabalhos daquela semana, brindando mais um ano de minha não tão destacada existência, o rega-bofe ficou, então, para o primeiro sábado posterior. Mas aquele importante dia 12 não passaria, de forma alguma, despercebido. Como um filho que se sente ignorado por seu pai, aquele dia faria de tudo para chamar a minha atenção. Mesmo que da pior maneira possível, recorrendo a birras e a desobediências, a segunda-feira em questão seria, indelevelmente, registrada em minha memória. Logo às 5h, antes mesmo do sol começar a aquecer aquela manhã, fui despertado por uma vexatória queda de minha cama. Não estava em quarto desconhecido tampouco sobre uma cama nova. Entretanto, o improvável aconteceu! E, para que não pudesse ousar em dormir novamente, caí sobre o ventilador que havia deixado no chão. Se a noite já havia sido tremendamente abafada, o começo daquela manhã superou toda e qualquer expectativa tragicômica.
Com o ventilador quebrado, o abafamento já me parabenizava pelo jubileu. Não adiantava insistir, pois o sono já estava perdido. Decidido a não esmorecer perante a primeira dificuldade de um dia especial, tratei de ir à loja de eletrodomésticos mais próxima para comprar um ventilador novo. Mais do que por gosto, um presente por necessidade! Mas quem disse que a compra seria fácil e rápida? Por algum motivo desconhecido, as maquininhas de cartão pareciam ter entrado em greve por tempo indeterminado. Após algumas tentativas frustradas e muitos olhares impacientes, precisei recorrer ao caixa eletrônico. Com o dinheiro em mãos, não poderia resolver a grande saga do ventilador sem o vexame de um escorregão na saída da loja.
Resignado com as agruras de uma manhã singular, encaminhava-me de volta a minha casa, quando Tupã, a todo-poderosa entidade indígena, resolveu prestar as suas homenagens com os primeiros trovões daquele dia tão promissor. A pouca distância entre a loja e a minha casa não foi suficiente para evitar um reparador, mas pouco desejado banho de chuva. Se a resistência do chuveiro funcionou a contento, o mesmo não pode ser dito a respeito deste desajeitado cozinheiro que tentava fazer uma simples refeição para seu almoço. Um telefonema que se estendeu por alguns longos minutos, e a panela de arroz acusou meu esquecimento com aquele desagradável e inconfundível cheiro de queimado.
A tarde não seria mais discreta, visto que a cadeira na qual me sentava não suportou meu sobrepeso. Apesar do sedentarismo e do gosto por comidas gordurosas, acreditava não estar sobrecarregando aquela velha companheira de trabalho. Mas nem sempre a verdade é sutil, e os sustos também nos servem para rever antigos estilos de vida. Enquanto ainda planejava a melhor forma de romper o ciclo nada virtuoso de guloseimas e bebidas açucaradas, a natureza parecia compadecer-se com minhas aflições, ao me presentear com uma bela noite estrelada. O destino, todavia, continuava impaciente e, como quem finaliza seu pobre e infeliz oponente no tatame, desferiu um inexplicável apagão elétrico por quase uma hora. Assim, a famigerada segunda-feira encerrava suas traquinadas com um belo e solitário jantar à luz de velas.
Apesar de todos esses incidentes, os primeiros dias de cada ano continuam fazendo parte de uma espécie de contagem regressiva. Caindo da cama ou tropeçando na rua, queimando o almoço ou jantando às escuras, mal posso esperar por meu próximo aniversário. Que seja, no entanto, uma data marcada por circunstâncias menos desastrosas! Sem recusar os presentes que, porventura, queiram dar, um dia menos desafortunado é, pois, tudo o que posso desejar para uma data tão pessoalmente especial.























